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Operação policial revela esquema por trás de proposta que ameaçava FGC

Rodrigo Vasconcelos09 de maio de 2026 · 02:57
Operação policial revela esquema por trás de proposta que ameaçava FGC

Operação policial revela esquema por trás de proposta que ameaçava FGC

A Polícia Federal deflagrou nesta quinta-feira (7) uma operação que expôs os bastidores de uma articulação para modificar as regras do Fundo Garantidor de Créditos (FGC). As investigações revelaram como uma proposta legislativa para elevar o limite de cobertura de R$ 250 mil para R$ 1 milhão foi estruturada por interesses específicos do setor bancário.

Emenda foi elaborada por assessores bancários

De acordo com as apurações policiais, a denominada Emenda Master teve origem nos escritórios de uma instituição financeira. Assessores da empresa redigiram o texto que posteriormente chegou ao Congresso Nacional defendendo a ampliação da garantia ordinária do FGC em quatro vezes.

A Comissão de Constituição e Justiça do Senado barrou a iniciativa por considerá-la inconstitucional e tecnicamente inadequada. O parlamentar responsável pela análise classificou a medida como "inoportuna" e incompatível com as práticas consolidadas no Brasil e exterior.

Os investigadores descobriram que a formulação da proposta envolveu repasses mensais que variavam entre R$ 300 mil e R$ 500 mil. O esquema incluía ainda financiamento de viagens ao exterior e gastos em estabelecimentos gastronômicos.

Pressão inédita sobre o fundo garantidor

O FGC opera desde 1995 como mecanismo de proteção do sistema financeiro e dos investidores. As instituições associadas fazem contribuições mensais que alimentam o fundo, que assegura restituições de até R$ 250 mil por pessoa em casos de intervenção bancária.

Ao final de 2024, o FGC acumulava R$ 123,2 bilhões em recursos. Desse total, foi necessário reservar R$ 40,6 bilhões para compensar clientes de bancos investigados cujos investimentos respeitavam o teto vigente. As liquidações posteriores elevaram o comprometimento para R$ 57,4 bilhões - aproximadamente metade do patrimônio disponível.

Impacto direto nas tarifas bancárias

William Baghdassarian, economista do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais, projeta que quadruplicar o limite provocaria encarecimento das tarifas bancárias. "As instituições teriam que elevar suas contribuições para o fundo. Como nenhum banco aceita prejuízo, haveria repasse através de tarifas mais altas e possivelmente juros maiores", analisa.

O especialista identifica também o "risco moral" inerente à proposta. Segundo Baghdassarian, uma cobertura de R$ 1 milhão estimularia instituições a prometerem rendimentos irreais, criando falsa percepção de segurança.

Colapso do sistema seria inevitável

Cesar Bergo, professor da Universidade de Brasília, compartilha da avaliação de que o aumento colocaria em risco a própria existência do FGC. "Ninguém antecipava que, mesmo com o limite atual, alguma instituição provocaria prejuízo de R$ 50 bilhões ao fundo", comenta.

Para Bergo, o teto vigente funcionou como freio à agressividade de bancos que ofereciam retornos acima da concorrência. Ele calcula que, caso a emenda tivesse sido aprovada, o prejuízo seria no mínimo R$ 15 bilhões maior.

"A lógica é simples: maior risco implica maior retorno. Quem possui R$ 1 milhão para aplicar compreende os riscos envolvidos", argumenta o economista. "Certamente as pessoas se exporiam de forma excessiva."

Como seria possível prever as consequências dessa alteração? Os acontecimentos recentes forneceram a resposta, demonstrando que o sistema atual já funciona próximo ao limite de suas capacidades.

Investigação avança sobre articulação política

A operação policial deve apurar outros elementos da mobilização política que sustentou a proposta. O caso ilustra como modificações aparentemente técnicas no sistema financeiro podem mascarar interesses particulares e ameaçar a estabilidade econômica do país.

Os próximos desenvolvimentos da investigação devem trazer à tona detalhes adicionais sobre essa engenharia institucional que quase prosperou no Legislativo. O episódio serve como alerta sobre a necessidade de escrutínio rigoroso em propostas que afetam a arquitetura financeira nacional, especialmente quando envolvem ampliação de garantias públicas em benefício de setores específicos.

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